Cerrado guarda até oito vezes mais carbono que Amazônia

O Cerrado pode armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, o que é até oito vezes mais do que a vegetação da Amazônia. Apesar da sua relevância no combate às mudanças climáticas, essa vegetação está sub-representada nas políticas climáticas e de financiamento.

Um estudo publicado na revista científica Plants, People, Planet ressalta que a falta de atenção aos campos e savanas está prejudicando o reconhecimento do seu papel ambiental. A pesquisa aponta que o carbono armazenado no solo do Cerrado é muitas vezes invisível nas metodologias que contabilizam emissões e compensações de carbono.

Os pesquisadores da Unicamp e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) alertam que mais de 46% da vegetação original do Cerrado já foi desmatada, o que libera uma quantidade significativa de carbono e compromete a biodiversidade. O professor Fernando Silveira ressalta que o tratamento da vegetação nativa é essencial para a mitigação adequada das mudanças climáticas.

Importância do armazenamento de carbono no Cerrado

O Cerrado, em suas áreas de vereda, pode armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, um volume até oito vezes maior do que a vegetação da Amazônia. Essa capacidade de retenção é crucial para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, mas os ecossistemas abertos, como campos e savanas, frequentemente recebem menos atenção nas políticas ambientais. Isso se deve, em parte, à falta de reconhecimento de seus vastos estoques de carbono que permanecem guardados no solo por períodos que podem chegar a 20 mil anos.

A pesquisa publicada na revista científica Plants, People, Planet destaca a necessidade de incluir esses ecossistemas nas iniciativas de financiamento climático. Parte do carbono armazenado no Cerrado está oculta sob a superfície, o que torna sua contabilização complexa e, consequentemente, seu valor para os mecanismos de mercado de carbono frequentemente subestimado.

Metodologias de crédito de carbono e suas falhas

As metodologias de crédito de carbono atualmente em uso tendem a focar nas florestas e na biomassa visível, como troncos e galhos, deixando de lado a riqueza de carbono presente nos solos e raízes dos ecossistemas de Cerrado. Segundo o professor Fernando Silveira, da UFMG, essa abordagem resultaria em uma subestimação do carbono armazenado, visto que o Cerrado é como “a ponta de um iceberg” – o que se vê é apenas uma fração do que realmente existe.

Para corrigir essa questão, é necessário desenvolver metodologias adequadas que permitam medir e validar o carbono subterrâneo. Isso é especialmente relevante diante da crescente transformação das áreas ocupadas pela vegetação nativa em pastagens e lavouras. Estima-se que já se perdeu mais de 46% da vegetação original do Cerrado, e tal desmatamento não apenas libera carbono, mas também compromete estoques que foram formados ao longo de séculos.

A recuperação dessas áreas é um processo lento, com a regeneração do Cerrado rupestre podendo levar séculos, em comparação com florestas que recuperam sua biomassas em algumas décadas, fenômeno que se deve à estrutura e adaptabilidade das plantas do Cerrado.

Desmatamento e impactos na biodiversidade

A alteração do uso da terra no Cerrado, que inclui o desmatamento para a agricultura e pastagens, resulta em perdas significativas não apenas de carbono, mas também de biodiversidade. Silveira argumenta que o plantio indiscriminado de árvores nem sempre representa uma solução eficaz, uma vez que as plantas do Cerrado são adaptadas a ambientes iluminados e a introdução de árvores pode interferir nas características dos biomas naturais.

Além disso, o Cerrado desempenha um papel vital na segurança hídrica, sendo responsável pela recarga de importantes aquíferos e abastecimento de oito de doze grandes bacias hidrográficas brasileiras. A degradação desse bioma pode ter consequências diretas sobre o acesso à água para cerca de 50 milhões de brasileiros, o que reforça a urgência de suas áreas serem protegidas.

Restauração e proteção da vegetação nativa

Para salvaguardar o Cerrado, é fundamental promover ações que priorizem a proteção da vegetação nativa e o uso de técnicas que respeitem as características originais de cada ecossistema. A educação ambiental é uma ferramenta essencial nesse processo, pois o desconhecimento sobre a importância dos campos e savanas leva a uma visão equivocada de inferioridade em relação às florestas. Essa mudança deve ser refletida nas políticas de conservação, que não podem ser restritas apenas à Amazônia.

Pela perspectiva de Silveira, é vital que iniciativas para combater o desmatamento incluam não somente a Amazônia, mas também o Cerrado, pois a proteção de um bioma não deve ser feita em detrimento de outro. Ao reconhecermos o Cerrado pelo seu valor ecológico e sua capacidade de armazenamento de carbono, podemos criar soluções mais integrais e efetivas para garantir sua proteção e, assim, promover um equilíbrio sustentável entre os diferentes biomas brasileiros.